Um dia quero conhecer o Ateliê Derequine, situado no Parque das Tribos, em Manaus, no estado do Amazonas (AM). É inspirador, gera renda para mulheres originárias que residem no lugar. À frente, a ativista indígena Vanda Ortega Witoto, gestora do empreendedorismo que vem se destacando em eventos e feiras do segmento de vestuário, principalmente por contar através das roupas a história de uma cultura.

Conheci a Vanda numa edição do RS Moda, no Centro de Eventos da FIERGS, em Porto Alegre, há algum tempo. Estrelas do mundo fashion faziam parte do Talk RUAH sobre histórias de moda, arte e comportamento. Glória Kalil e Dudu Bertholini trouxeram em suas falas a importância da moda regional com representatividade. Apesar de estar ansiosa por escutá-los, quem ganhou minha atenção foi Vanda, ao falar sobre o Ateliê Derequine, sustentabilidade, empreendedorismo e empoderamento de mulheres indígenas que comunicam suas existências através da arte, do criar de suas mãos.
Desde então comecei a acompanhar o trabalho do Ateliê Derequine, da Vanda e da sua luta pela preservação da natureza e pela causa indígena, sobretudo, pelas mulheres da comunidade Parque das Tribos.
No final do evento conversei com a Vanda e ela me passou seu contato para uma conversa posterior, pois eu tinha muitas perguntas para fazer e ali não seria possível. Alguns dias depois a líder indígena falou sobre a moda que pede mudança, respeito e igualdade, estampando a história nos tecidos onde são confeccionadas roupas que vestem corpos reais.
Foi gratificante saber que no ateliê as mulheres trabalham com impressão têxtil manual e também com desenhos que resgatam a ancestralidade.
A história do Ateliê Derequine

Localizado na comunidade Parque das Tribos, na periferia de Manaus, o Ateliê Derequine é o primeiro de moda indígena no estado. Criado no ano 2020, em plena pandemia do covid-19, com apenas uma máquina de costura e muita vontade de dar certo, o ateliê cresceu e já é conhecido no Brasil, com vendas para diferentes estados. “Na pandemia as mulheres da comunidade não podiam sair para vender seu artesanato, então foi preciso encontrar uma solução”, disse Vanda.
No Parque das Tribos vivem cerca de 2.800 pessoas, de 30 etnias, onde são faladas 14 línguas. Muitas mulheres da comunidade são semianalfabetas e o Ateliê chegou com o propósito de geração de renda, sendo um meio de empoderar e tirar mulheres da condição de vulnerabilidade econômica. Além da costura das roupas, são realizadas oficinas, como de carimbos têxtil e confecção de absorventes ecológicos.
Roupas com significado

As roupas criadas pelo Ateliê Derequine são artesanais, criadas por mulheres originárias, com memórias antepassadas. “Quem costura é a mãe, a irmã e outras parentas (como chama as mulheres da comunidade), as duas irmãs jovens fazem as pinturas”, falou, orgulhosa. “Não fazemos apenas peças de roupas, mas resgatamos nossa cultura, nossa identidade. Os grafismos significam muito pra gente, nossa cultura foi apagada”, lembra, contando que as avós as ensinaram a costurar. “Nossa vivência com a raça, o rio, a terra e as sementes, nos inspiram”, disse, falando sobre as roupas criadas, cortadas, costuradas e pintadas por mulheres de dois povos, as witotos e as muras.
Vanda contou que a confecção de cada peça respeita o tempo das mulheres, da natureza e dos ciclos. “Elas são mães e cuidam da educação indígena, que é uma das coisas mais importantes da nossa cultura”, frisou.

Os tecidos são pintados à mão em algodão cru, linho e viscose. ‘São os mais frios para a região quente”, disse, salientando que no Amazonas, por não ser um polo têxtil, existe muita dificuldade com fornecedores de tecido: “Quando vou à São Paulo, faço compras e, quando não posso, usamos o que tem na cidade”.
O primeiro trabalho apresentado pelo Ateliê Derequine falou da Maloca Sagrada. Vanda explicou que “é a casa comum, que representa o corpo da mulher”, lembrando que cada peça inicial foi pensada para contar a história dos Witoto (também conhecido como huitoto, uitoto, murui, muinane, mi-ka ou mi-pode). “Pegamos uma maloca, um triângulo, corpo que gera vida e colocamos ele invertido, criando um poncho”.
A moda é política

Conhecida mundialmente, Vanda luta pelo resgate histórico da herança do povo Witoto. A moda para ela, é mais que vender roupas, é um instrumento de comunicação e de reivindicação: “Produzimos uma moda que é política, de demarcar corpos e comunicar nossa história, nossa existência, nossos povos e territórios”. A voz forte e clara da ativista também pede debates urgentes sobre o meio ambiente.
Para Vanda é grandioso e potente mostrar o trabalho do Ateliê Derequine nas passarelas. “Quando vestimos roupas produzidas por mulheres indígenas, com pessoas indígenas, elevamos nossa autoestima, nos tirando do lugar de pessoas feias, sem capacidade. É mostrar nosso conhecimento diante dessa estrutura que nos nega. É muito emocionante, não entramos na passarela de salto, vamos com nossos pés descalços, nossos cocares, nossas pinturas”, declara.
O principal canal de venda é a plataforma digital do Instagram, além de feiras locais e nacionais, onde são expostas e comercializadas.
https://www.instagram.com/ateliederequine/
Fotos: Ateliê Derequine
Giovana

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